{"id":94,"date":"2025-12-22T09:00:00","date_gmt":"2025-12-22T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/novo.heldercunha.com\/?p=94"},"modified":"2026-11-03T22:27:45","modified_gmt":"2026-11-03T22:27:45","slug":"vinho-no-natal-ritual-partilha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novo.heldercunha.com\/pt\/vinho-no-natal-ritual-partilha\/","title":{"rendered":"O papel do vinho no Natal: ritual, tempo e liga\u00e7\u00e3o humana"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O Natal como ritual, n\u00e3o como evento comercial<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma diferen\u00e7a silenciosa entre <strong>viver o Natal<\/strong> e apenas <strong>passar pelo Natal<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira acontece quando o tempo abranda. Quando a casa cheira a comida feita com anteced\u00eancia. Quando h\u00e1 uma mesa posta com cuidado, n\u00e3o para \u201cficar bonita\u201d, mas para acolher. A segunda \u00e9 o Natal transformado em calend\u00e1rio, filas, embrulhos, ru\u00eddo \u2014 e uma esp\u00e9cie de urg\u00eancia coletiva para \u201cter tudo certo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 aqui que o vinho entra, muitas vezes, pelo lado errado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em vez de ser um fio que une pessoas, mem\u00f3rias e conversas, torna-se um objeto que se exibe. Em vez de ser parte do ritual \u2014 discreto, vivo, humano \u2014 vira um sinal de status, um <em>extra<\/em> para impressionar. E quando isso acontece, o vinho deixa de ser cultura e passa a ser decora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu gosto de vinho porque ele tem tempo dentro. Tempo na vinha, tempo na adega, tempo de espera. E o Natal, quando \u00e9 verdadeiro, tamb\u00e9m \u00e9 isto: tempo. N\u00e3o o tempo do rel\u00f3gio, mas o tempo humano \u2014 aquele em que uma pausa vale mais do que uma agenda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, quando falo de <strong>vinho no Natal<\/strong>, n\u00e3o penso em \u201cqual \u00e9 o melhor\u201d. Penso numa pergunta mais honesta: <em>para que serve o vinho nesta noite?<\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se a resposta for \u201cpara ligar pessoas\u201d, estamos no caminho certo. Se a resposta for \u201cpara mostrar alguma coisa\u201d, estamos a perder o essencial \u2014 e, ironicamente, a perder tamb\u00e9m o prazer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 aqui que entra a ideia de <strong>drinkfulness<\/strong>: n\u00e3o \u00e9 beber pouco por obriga\u00e7\u00e3o. \u00c9 beber com inten\u00e7\u00e3o. \u00c9 escolher o vinho como parte de um momento, e n\u00e3o como o centro do palco.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O vinho na mesa de Natal: tradi\u00e7\u00e3o, tempo e sil\u00eancio<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 mesas de Natal onde o vinho quase n\u00e3o se comenta. E isso, para mim, \u00e9 um elogio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O vinho, neste contexto, n\u00e3o precisa de discurso. Est\u00e1 ali como estava na mesa dos av\u00f3s, e antes deles. A garrafa abre-se, serve-se, e de repente a conversa muda de temperatura. As pessoas pousam o telem\u00f3vel. O corpo descontrai. H\u00e1 um pequeno sil\u00eancio no primeiro gole \u2014 n\u00e3o um sil\u00eancio t\u00e9cnico, mas um sil\u00eancio humano, como quem reconhece que chegou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Natal tem essa capacidade: restaurar o que o ano foi gastando. E o vinho, quando bem colocado no ritual, ajuda precisamente nisso \u2014 porque convida \u00e0 presen\u00e7a. Convida ao \u201caqui\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tecnicamente, isto faz sentido. O \u00e1lcool, em doses moderadas e acompanhado de comida, atua como um facilitador social: reduz a tens\u00e3o, simplifica a ansiedade, aproxima o tom emocional. Mas o que interessa n\u00e3o \u00e9 a qu\u00edmica isolada. \u00c9 o conjunto: comida, luz, pessoas, hist\u00f3ria, e o vinho como ponte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O erro \u00e9 quando se tenta transformar essa ponte num palco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando o vinho \u00e9 escolhido para ser falado em voz alta, muitas vezes ele come\u00e7a a competir com o jantar e com as pessoas. E no Natal, competir \u00e9 sempre uma forma de perder. A melhor mesa de Natal n\u00e3o \u00e9 a que \u201cmostra\u201d. \u00c9 a que acolhe. E o vinho deve ser isso: uma forma de acolhimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 ainda um detalhe que se percebe com os anos: o vinho no Natal n\u00e3o precisa de \u201cgritar\u201d. Pelo contr\u00e1rio. Os vinhos que brilham mais, nestes dias, s\u00e3o frequentemente aqueles que t\u00eam equil\u00edbrio, frescura, clareza \u2014 vinhos que acompanham sem dominar, que deixam a comida e as pessoas ocuparem o lugar central.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 por isso que eu gosto da imagem do vinho como sil\u00eancio. N\u00e3o o sil\u00eancio da aus\u00eancia, mas o sil\u00eancio do que est\u00e1 certo e n\u00e3o precisa de ser provado.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/novo.heldercunha.com\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/vinho-natal-ritual-tempo-ligacao-1024x683.jpg\" alt=\"Vinho no Natal em mesa intimista com dois copos de vinho meio cheios, uma garrafa aberta ao fundo e uma m\u00e3o pousada na mesa, evocando o vinho como ritual de tempo e partilha.\" class=\"wp-image-95\" srcset=\"https:\/\/novo.heldercunha.com\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/vinho-natal-ritual-tempo-ligacao-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/novo.heldercunha.com\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/vinho-natal-ritual-tempo-ligacao-300x200.jpg 300w, https:\/\/novo.heldercunha.com\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/vinho-natal-ritual-tempo-ligacao-768x512.jpg 768w, https:\/\/novo.heldercunha.com\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/vinho-natal-ritual-tempo-ligacao.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/novo.heldercunha.com\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/servir-vinho-ritual-natal-1024x683.jpg\" alt=\"Vinho tinto a ser servido num copo, numa mesa de Natal \u00e0 luz de velas\" class=\"wp-image-96\" srcset=\"https:\/\/novo.heldercunha.com\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/servir-vinho-ritual-natal-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/novo.heldercunha.com\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/servir-vinho-ritual-natal-300x200.jpg 300w, https:\/\/novo.heldercunha.com\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/servir-vinho-ritual-natal-768x512.jpg 768w, https:\/\/novo.heldercunha.com\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/servir-vinho-ritual-natal.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Quando o tempo abranda, o vinho deixa de ser objeto e passa a ser companhia.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O erro comum: escolher vinhos para impressionar<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 um padr\u00e3o que se repete todos os anos: algu\u00e9m quer \u201cacertar\u201d no vinho de Natal, e confunde acertar com impressionar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 boa. Ningu\u00e9m quer falhar num momento t\u00e3o carregado de simbolismo. Mas a l\u00f3gica do status \u00e9 trai\u00e7oeira: coloca-nos a escolher para os outros, n\u00e3o para a mesa. E quando escolhemos para \u201cn\u00e3o sermos julgados\u201d, deixamos de escolher com liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Impressionar costuma levar a tr\u00eas erros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro \u00e9 o <strong>excesso<\/strong>: demasiadas garrafas, demasiadas refer\u00eancias, demasiada ansiedade. Como se a abund\u00e2ncia resolvesse o medo de n\u00e3o estar \u00e0 altura. No fim, bebe-se mais do que se devia \u2014 e lembra-se menos do que se viveu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O segundo \u00e9 a <strong>inadequa\u00e7\u00e3o<\/strong>: vinhos muito potentes, muito marcados, muito \u201cdemonstrativos\u201d, que roubam espa\u00e7o \u00e0 comida e deixam a conversa mais pesada do que precisava. H\u00e1 tintos que s\u00e3o magn\u00edficos \u2014 mas numa noite de muitas entradas, pratos diferentes, ritmos familiares, podem tornar tudo mais lento, mais denso, mais dif\u00edcil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O terceiro erro \u00e9 o <strong>teatro<\/strong>: falar do vinho como se fosse um exame, corrigir o copo do outro, transformar cada garrafa numa palestra. Eu entendo: o vinho pode ser fascinante. Mas no Natal, o fasc\u00ednio maior deveria ser a mesa humana, n\u00e3o o vocabul\u00e1rio. E h\u00e1 uma verdade desconfort\u00e1vel aqui: quando o vinho vira ferramenta de afirma\u00e7\u00e3o pessoal, ele deixa de ser partilha. Se o objetivo \u00e9 \u201cprovar que sei\u201d, o vinho passa a ser sobre mim. E o Natal, para valer a pena, precisa de ser sobre \u201cn\u00f3s\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 por isso que a drinkfulness \u00e9 uma resposta t\u00e3o simples e t\u00e3o dif\u00edcil: ela pede humildade. Pede-nos para sair do centro e colocar o momento no centro. Pede-nos para escolher vinhos que sirvam a liga\u00e7\u00e3o, n\u00e3o o ego.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Acertar no vinho no Natal: escolher vinhos para ligar pessoas<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando eu penso em <strong>vinho e partilha<\/strong>, penso num vinho que aproxima. Um vinho que n\u00e3o exige desempenho do copo, nem conhecimento do leitor, nem aprova\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m. Um vinho para ligar pessoas tem algumas qualidades muito concretas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira \u00e9 a <strong>facilidade de beber<\/strong> \u2014 n\u00e3o no sentido de ser \u201csimples\u201d, mas no sentido de ser hospitaleiro. H\u00e1 vinhos tecnicamente profundos que s\u00e3o, ao mesmo tempo, transparentes. N\u00e3o obrigam o palato a lutar. Convidam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A segunda \u00e9 a <strong>versatilidade \u00e0 mesa<\/strong>. O Natal \u00e9 plural: h\u00e1 bacalhau, h\u00e1 assados, h\u00e1 entradas, h\u00e1 doces, h\u00e1 pratos que voltam todos os anos e pratos que aparecem de surpresa. Escolher vinhos que acompanhem sem se impor \u00e9 escolher paz. E paz, no Natal, \u00e9 um luxo verdadeiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A terceira \u00e9 a <strong>capacidade de criar conversa sem a dominar<\/strong>. Um vinho pode ser o in\u00edcio de uma hist\u00f3ria \u2014 \u201clembras-te desta noite?\u201d, \u201clembras-te do av\u00f4 a servir assim?\u201d, \u201clembras-te daquele Natal em que faltou luz?\u201d \u2014 e n\u00e3o o tema que sequestra a mesa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 um gesto que eu acho particularmente bonito: quando algu\u00e9m serve um copo e diz apenas \u201cprova\u201d. Sem discurso. Sem propaganda. E depois deixa o outro reagir como quiser. Isto \u00e9 respeito. \u00c9 liberdade. \u00c9 partilha. E \u00e9 aqui que o vinho deixa de ser um objeto e volta a ser um ritual. Porque o ritual n\u00e3o \u00e9 a garrafa. O ritual \u00e9 a aten\u00e7\u00e3o. \u00c9 servir com cuidado. \u00c9 reparar se o outro quer mais ou quer parar. \u00c9 deixar \u00e1gua na mesa como parte da mesma dignidade. \u00c9 perceber que \u201cbeber com consci\u00eancia\u201d n\u00e3o \u00e9 moralismo \u2014 \u00e9 eleg\u00e2ncia humana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No fundo, escolher vinho para ligar pessoas \u00e9 escolher o vinho como linguagem afetiva. E a linguagem afetiva do Natal \u00e9 sempre discreta. N\u00e3o precisa de provar nada.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Menos garrafas, mais inten\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma ideia que eu defendo com cada vez mais convic\u00e7\u00e3o: <strong>menos garrafas, mais inten\u00e7\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Natal, por ser raro e simb\u00f3lico, seduz-nos para o excesso. Mas o excesso n\u00e3o \u00e9 sin\u00f3nimo de abund\u00e2ncia emocional. \u00c0s vezes \u00e9 o contr\u00e1rio: \u00e9 barulho. E barulho n\u00e3o cria mem\u00f3ria; cria cansa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A inten\u00e7\u00e3o come\u00e7a antes de abrir a garrafa. Come\u00e7a em escolher um vinho e aceitar que ele n\u00e3o precisa de agradar a todos. Precisa de servir a mesa. Come\u00e7a em decidir que o vinho vai acompanhar a comida e a conversa, e n\u00e3o substituir nenhuma das duas. Come\u00e7a em cuidar do ritmo: servir devagar, comer, parar, conversar, voltar. Isto, na pr\u00e1tica, muda tudo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando bebemos com pressa, o corpo fica para tr\u00e1s. O \u00e1lcool chega antes da presen\u00e7a. Quando bebemos com comida e com pausas, o vinho fica onde deveria estar: no lugar do prazer e da liga\u00e7\u00e3o, n\u00e3o no lugar da fuga. E aqui entra um ponto que muita gente evita dizer em voz alta, mas que \u00e9 central se falamos de cultura: o vinho n\u00e3o \u00e9 uma prova de resist\u00eancia. \u00c9 uma forma de civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Natal \u00e9 uma oportunidade para reabilitar essa civiliza\u00e7\u00e3o em casa. Para mostrar aos mais novos que vinho n\u00e3o \u00e9 \u201cliberdade sem limite\u201d, mas sim um prazer com forma, com contexto, com medida. Para mostrar aos mais velhos que n\u00e3o precisamos repetir automatismos \u2014 podemos escolher melhor, sem perder tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Drinkfulness, no Natal, pode ser uma coisa simples: abrir menos garrafas, servir copos menores, beber mais devagar, alternar com \u00e1gua, e sobretudo conversar mais do que se comenta o vinho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No fim, o que fica n\u00e3o \u00e9 a lista de garrafas. \u00c9 o que aconteceu entre as pessoas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O vinho no Natal como mem\u00f3ria entre gera\u00e7\u00f5es<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma coisa que me comove no Natal: ele \u00e9 um dos poucos momentos em que as gera\u00e7\u00f5es se sentam \u00e0 mesma mesa \u2014 com as suas diferen\u00e7as, as suas feridas, os seus afetos, as suas hist\u00f3rias incompletas. E o vinho, de forma discreta, funciona como um arquivo emocional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 quem lembre o Natal pelo prato. H\u00e1 quem lembre pelo cheiro da casa. E h\u00e1 quem lembre por um copo servido por algu\u00e9m que j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1. N\u00e3o por ser um vinho \u201ccaro\u201d, mas por ser <em>aquele<\/em> vinho, naquele contexto, com aquelas m\u00e3os. O vinho tem essa capacidade: transportar um momento inteiro num detalhe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 por isso que eu n\u00e3o gosto da ideia do vinho como ostenta\u00e7\u00e3o no Natal. Porque a ostenta\u00e7\u00e3o \u00e9 est\u00e9ril. N\u00e3o cria raiz. E o Natal \u00e9 raiz. \u00c9 fam\u00edlia, mesmo quando a fam\u00edlia \u00e9 imperfeita. \u00c9 tentar, pelo menos por uma noite, honrar o que veio antes e cuidar do que vem depois.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se queremos falar de cultura do vinho em Portugal, h\u00e1 um ponto essencial: a cultura n\u00e3o se faz s\u00f3 em provas e restaurantes. Faz-se em casa. Faz-se na mesa. Faz-se na forma como os adultos bebem \u00e0 frente dos jovens. Faz-se na naturalidade com que se diz \u201cj\u00e1 chega\u201d sem vergonha. Faz-se na forma como se bebe devagar e se escuta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E aqui h\u00e1 um gesto que eu gostaria que fosse mais comum: contar a hist\u00f3ria do vinho sem a transformar em li\u00e7\u00e3o. Dizer, por exemplo: \u201ceste vinho lembra-me o teu av\u00f4\u201d, ou \u201ceste vinho abre-se sempre nesta altura\u201d, ou \u201cisto \u00e9 para o bacalhau, porque o bacalhau merece respeito\u201d. Pequenas frases que criam identidade sem propaganda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No fim, o vinho torna-se uma mem\u00f3ria entre gera\u00e7\u00f5es, n\u00e3o porque \u00e9 raro, mas porque \u00e9 vivido com inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O verdadeiro brinde de Natal<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O verdadeiro brinde de Natal n\u00e3o \u00e9 ao vinho. \u00c9 \u00e0s pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O vinho \u00e9 apenas o meio. Um meio antigo, imperfeito, profundamente humano, que nos ensina uma coisa simples: as melhores coisas da vida precisam de tempo. E precisam de presen\u00e7a. Se eu pudesse deixar uma ideia para este Natal, seria esta: escolhe o vinho como escolhes uma palavra importante. N\u00e3o pela for\u00e7a com que soa, mas pela verdade com que encaixa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vinho no Natal pode ser ritual. Pode ser sil\u00eancio bom. Pode ser partilha. Pode ser um lembrete de que a mesa \u00e9 um lugar sagrado \u2014 n\u00e3o religioso, mas humano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E se houver drinkfulness nesta noite, ela n\u00e3o estar\u00e1 na quantidade nem no pre\u00e7o. Estar\u00e1 na forma: no cuidado, no ritmo, na medida, na alegria tranquila.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udc49 <strong>Que vinho vai abrir este Natal \u2014 e com quem?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Sugest\u00f5es de Leitura:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><\/strong>Para quem quiser aprofundar esta rela\u00e7\u00e3o entre vinho, tempo e inten\u00e7\u00e3o, deixo tr\u00eas leituras complementares. Em <em>A Magia dos Vinhos Envelhecidos: Quando Abrir uma Garrafa Especial?<\/em> reflito sobre o valor da espera e sobre como decidir o momento certo de abrir uma garrafa, n\u00e3o por status, mas por significado. Em <a href=\"\/pt\/beber-menos-beber-melhor-regresso-ao-essencial\/\"><em>Beber Menos, Mas Melhor: A Tend\u00eancia Global Que Est\u00e1 a Revolucionar o Mundo do Vinho<\/em><\/a> exploro a mudan\u00e7a cultural no consumo de vinho e a import\u00e2ncia de beber com consci\u00eancia e inten\u00e7\u00e3o. J\u00e1 em <em>Como o Clima de Inverno Molda a Qualidade das Uvas<\/em> mostro como o sil\u00eancio e a dorm\u00eancia da vinha s\u00e3o parte essencial do ciclo que d\u00e1 origem ao vinho que chega ao copo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Natal como ritual, n\u00e3o como evento comercial H\u00e1 uma diferen\u00e7a silenciosa entre viver o Natal e apenas passar pelo Natal. A primeira acontece quando o tempo abranda. Quando a casa cheira a comida feita com anteced\u00eancia. Quando h\u00e1 uma mesa posta com cuidado, n\u00e3o para \u201cficar bonita\u201d, mas para acolher. 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